«As histórias são o nosso grande mecanismo de entendimento do mundo»

A primeira foi engolida por uma baleia, à segunda saltou-lhe a cabeça e a terceira não cabe em lado nenhum - eis as suas heroínas. Inspirado nas histórias que conta à filha, António Jorge Gonçalves diz que, nos seus livros, há sempre «detalhes que fazem sentido para um adulto». Apaixonado pelas artes performativas, este «desenhador», como gosta de ser chamado, sonha um dia ter uma «banda de artistas visuais».

 

Ao contrário da Sari e da Céu, a tua última heroína, do recém-publicado Estás tão Crescida, não tem nome. Porque não a baptizaste?

Não sei. Ela sempre se apresentou apenas como a menina mais crescida do mundo.

Que ideia te norteou na concepção desta história?

Estamos sempre a dar notícia às crianças com quem convivemos da forma como estão crescidas. Essa nossa obsessão parece passar-lhes ao lado.

E o que tem em comum com as anteriores?

É mais uma mais uma personagem feminina, mais um problema de crescimento (literalmente), mais uma situação de crise… Sem conflito, não há drama (as crianças também merecem shaskespear).

Mas esta menina não tem silhueta preta.

Não, porque desta vez quis fazer tudo em aguarela, o que neste momento me dá muito mais prazer.

Recuemos ao teu primeiro livro publicado pelo Pato Lógico, Barriga da Baleia. O que te inspirou?

Nunca tinha trabalhado para a infância e pensei numa das muitas histórias que costumava contar à minha filha [hoje com nove anos] sobre um tema antigo que tinha explorado quando estive em Londres (e li The Hero with a Thousand Faces, de Joseph Campbell): o ser-se engolido pelo grande peixe… Um dia, quando pintava o quarto da Miranda, antes de ela nascer, dei comigo a desenhar automaticamente uma baleia e uma menina a sair-lhe pela boca. Digamos que a história estava na minha cabeça e surgiu naturalmente, embora com algumas pontas soltas. Curiosamente, descobri depois que uma das grandes obsessões das crianças é serem engolidas ou comidas. Há centenas de milhares de anos que fugimos de predadores e quando se é criança esse temor está ainda mais presente.

 

Saímos para o mundo e, mais tarde ou mais cedo, somos todos engolidos por uma baleia. 

 

Não é uma história dócil…

As minhas histórias começam quase sempre com um dilema, uma situação de crise. Depois, há a história de todos nós: saímos para o mundo e somos engolidos por uma baleia, mais tarde ou mais cedo. Há também uma parte autobiográfica, que é a minha própria relação amorosa. No fundo, começam por ser histórias que conto à minha filha, mas quero que também haja nelas uma qualquer parte da minha vida. Há sempre, nos meus livros, pequenos detalhes que fazem sentido para um adulto.

Quais são, no caso do último livro?

A Lua, uma vez retirada do céu, cá em baixo, torna-se um letreiro de néon, faz-nos pensar nos copos, nas “noites”, na transgressão que é a vida nocturna desde a invenção da luz eléctrica.

Voltando à Barriga da Baleia: o livro nasceu de uma peça de teatro, ao contrário do que geralmente acontece.

Não foi premeditado: tive um convite da Susana Menezes, (programadora) do teatro Maria Matos, três anos depois de a minha filha nascer. Mas o que é interessante é que a ordem está certa: as histórias começam por ser contadas oralmente, depois incorporaram rituais (teatro), e o livro é a última coisa a chegar.

Mas o texto, em comparação com o guião, é muito mais curto.

Sim. Há coisas no livro que não estão na peça, e vice-versa. A peça vive muito da presença e do discurso da atriz, das canções… Da mesma maneira que quando a contava à minha filha, também era um objecto distinto, era uma história contada geralmente na cama, antes de dormir. 

A tua filha é a razão de o protagonista das tuas histórias ser sempre uma menina?

É possível. A maioria dos meus amigos íntimos sempre foram mulheres. Além disso, há demasiados heróis. Mas isto também tem que ver com algo autobiográfico: durante a adolescência, a socialização masculina e de grupo era algo em que não me revia e que odiava. Quando cheguei à Faculdade de Belas Artes, respirei de alívio, porque percebi que havia sítios onde era normal as pessoas serem diferentes. Isto para dizer que tenho tido, durante toda a vida, uma maneira de olhar o mundo e a trama das relações um pouco feminina, porque percebi, através da minha própria filha, que as raparigas começam muito cedo a entender esse lado, ao passo que, entre os rapazes, até os afectos são transmitidos à cacetada e à bofetada. As histórias que quero contar têm que ver com uma ecologia emocional, e a maior parte dos homens não está tão dentro desse universo.

 

Sinto que minto mais com as palavras do que com os desenhos.

 

Seguiu-se outra peça e outro livro. Como nasceu Eu Quero a Minha Cabeça?

Veio embalada, porque já tinha decidido escrever mais uma depois da Barriga da Baleia. A montanha também era outro tema que vinha de longe, a história do Sísifo… É uma história sobre a adversidade, como aliás a do Estás tão Crescida. E o «não» também toca aos adultos: há, na negação, uma porta que se fecha e um caminho que se segue. Quando os educadores tentam impor um padrão de comportamento, e a criança diz «não», então ela terá de encontrar o seu caminho. Há, subjacente, uma ideia de resiliência: a Céu não quer uma cabeça qualquer - ela quer a sua, quer encontrar o seu caminho.

Estas histórias são uma forma positiva de explicar às crianças o sofrimento e a frustração?

A todos nós. As histórias são o nosso grande mecanismo de entendimento do mundo. Como contamos as coisas que nos acontecem uns aos outros? Como histórias e sempre revestidas, não de uma moral, mas de uma descodificação qualquer.

É mais fácil escrever livros ou guiões?

Não tenho um instinto de escrita ficcional tout-court como se de um escritor me tratasse. Sinto que minto mais com as palavras do que com os desenhos. Quando desenho, consigo fazer um abaixamento de nível mental, que permite ir mais ao inconsciente, às emoções. Já quando falo ou escrevo, sinto-me mais engenheiro, a ir às gavetas…

E o que preferem as crianças: os livros ou os espectáculos?

São objectos diferentes. O teatro tem a adrenalina e a força de um acontecimento colectivo, é um ritual - no caso do Barriga da Baleia, os miúdos eram convidados a chorar para conseguirem fazer o mar e, no caso do Eu Quero a Minha Cabeça, tinham de adivinhar a palavra mágica para sair da montanha. Mas o livro é a possibilidade de reverem a história vezes sem conta, algo que as crianças adoram, muito mais do que os adultos, porque não entendem tudo à primeira.

Que livros marcaram a tua infância e juventude?

A Menina do Mar, da Sophia, e A Guerra do Fogo, do J.-H. Rosny-Aîné.

 

Precisamos todos de ir para a rua e de fazer coisas uns com os outros. 

 

Estas duas peças estão documentadas no livro Desenhos Efémeros, publicado recentemente pela Orfeu Negro. Achas que o público entende a linguagem performativa?

Acho que entende quando vê. Essa tem sido a maior dificuldade e também o maior fascínio desta actividade: seja o operário, a mulher-a-dias ou o programador de um teatro, ao verem o que faço em frente a um edifício, à noite, conseguem perceber. Aqueles desenhos aparecem pela primeira vez, tanto para quem os vê, como para quem os faz. É algo que partilho em tempo real, uma sincronicidade absoluta entre público e artista. Mas é muito difícil explicar o que é isto, até mesmo aos programadores - e por isso fiz o livro. Claro que a individualidade é necessária para a criação, mas deve haver mais do que isso. Tudo pode ser performativo nas artes, ou seja, pode acontecer com outras pessoas, ritualisticamente. E, nesse sentido, precisamos todos de ir para a rua e de fazer coisas uns com os outros. Esse é o lado mais inspirador de trabalhar em palco. Trabalhei com escritores, orquestras, músicos, bailarinos, bandas pop… Às vezes, penso que é quase um milagre ter tido oportunidade de trabalhar com pessoas de tantas áreas.

Em quem te inspiraste?

Isto levou-me ao estrangeiro, fiz muitos trabalhos lá fora, mas, surpresa minha, não descobri muita gente a fazê-lo - essencialmente, só ucranianos ou búlgaros, que fazem desenhos de areia em cima de uma mesa de luz. O próximo passo que gostava de dar era ter uma banda de artistas visuais, porque é muito mais divertido misturar universos. É como dançar com alguém: quando desenho com um músico, estou a tocar música; quando desenho com um bailarino, estou a dançar com a mão…

Gostas de arriscar?

Isto foi uma autêntica mudança de pele. Tive de me reinventar, porque eu era esse clássico rapaz curvado sobre o papel, com raiva a quem viesse espreitar por cima do ombro para ver o que estava a desenhar.

Quando descobriste o gosto pelo desenho?

Aos quatro anos, fiz a minha primeira banda desenhada: o nascimento de uma zebra.

Como gostas de ser chamado? O desenhador?

Sim, cabe tudo aí.