«Fiquei ainda mais apaixonada por Saramago»

Há livros que nos fazem voltar à infância. Inês Fonseca Santos regressou esta semana a Loures, onde cresceu e viveu muitos anos, para falar do seu livro José Saramago, Homem-Rio aos alunos de duas escolas secundárias do concelho. «Teria a mesma idade que vocês quando conheci Saramago, na Feira do Livro de Lisboa», começou por recordar a jornalista, esta terça-feira, perante uma mini-plateia de estudantes do 12.º ano reunidos numa sala da biblioteca municipal. 

«[Saramago] Foi muito simpático e afável, assinou o livro [Provavelmente Alegria] e esteve uns minutos à conversa comigo, mesmo com uma fila enorme de gente à espera», lembrou Inês, admitindo que a partir desse dia a imagem do escritor «sério e austero» caiu por terra. Mais tarde, evocaria este episódio quando foi convidada pelo Pato Lógico para escrever a biografia do Nobel, um dos títulos da colecção Grandes Vidas Portuguesas, co-editada pela Imprensa Nacional.

Centrado na infância e juventude do escritor, no livro está representado um mapa com duas casas simbólicas. «A da literatura, que diz respeito à sua formação enquanto leitor, e a da infância, que foi a casa dos avós maternos, onde ele cresceu, muito importante na sua formação enquanto homem», foi explicando a também escritora. E «porquê o título “Homem-Rio”?», quis saber uma estudante. «Achei que seria uma imagem bonita falar do escritor enquanto rio cheio de afluentes que cumpre o seu curso. É como se a escrita seguisse o movimento das águas e como se o escritor se vestisse de rio», responde a autora, que diz ter-se inspirado num poema da obra Provavelmente Alegria, em que Saramago regressa ao lugar onde cresceu, com o rio (Almonda) em fundo.

No fim, Inês Fonseca Santos acabou por confessar: «Terminei este livro ainda mais apaixonada pelo escritor e pelo homem, pois percebi que, mesmo nos momentos em que tomou atitudes mais radicais, Saramago era profundamente humano e humanista.» 

E como traduzir tudo isto em imagens? A parceria com o ilustrador João Maio Pinto «correu bem». Ele, que se diz um «artista híbrido», inspirou-se no texto «riquíssimo» dela e apostou em cores «quentes e vibrantes» precisamente para «desconstruir a ideia prevalecente de Saramago como figura fechada e um pouco taciturna».

No hall de entrada da biblioteca, João explicou, uma a uma, as ilustrações ali expostas. Demorou-se na capa, que marcaria o tom das restantes: «Aqui já estão os elementos essenciais: as pedras, o rio, a casa, a montanha, partes da máquina de escrever…». E uma gota de tinta, a evocar a relação de Saramago com a escrita. Seguem-se o rio em forma de nascente, a máquina de escrever (com uma chaminé a evocar a «locomotiva do pensamento e da escrita»), a oliveira em frente à casa dos avós, a torre da igreja («Saramago-jovem a crescer para a escrita»), o Nobel (de olhos fechados, «estranhamente sereno»), os braços que abarcam o rio… até à última, a do homem-rio, que encerra o livro. 

Cerca de 60 estudantes do 12.º ano das escolas Dr. António Carvalho Figueiredo e José Afonso estiveram presentes nas duas sessões de autor organizadas pela Biblioteca Municipal José Saramago, como forma de celebrar o seu 16.º aniversário.

A exposição das ilustrações de João Maio Pinto, essa, vai estar patente até ao fim do ano.